Sexta Meia Noite

Crítica – O Estranho Mundo de Jack

Por Cristine Tellier

Jack Skellington (voz de Chris Sarandon) é um ser fantástico que vive na Cidade do Halloween, um local cercado por criaturas fantásticas. Lá todos passam o ano organizando o Halloween do ano seguinte mas, após mais um Halloween, Jack se mostra cansado de fazer aquilo todos os anos. Assim ele deixa os limites da Cidade do Halloween e vagueia pela floresta. Por acaso acha alguns portais, sendo que cada um leva até um tipo festividade. Jack acaba atravessando o portal do Natal, onde vê demonstrações do espírito natalino. Ao retornar para a Cidade do Halloween, sem ter compreendido o que viu, ele começa a convencer os cidadãos a sequestrarem o Papai Noel (voz de Edward Ivory) e fazerem seu próprio Natal. Apesar de argumentos fortes de sua leal namorada Sally (voz de Catherine O’Hara) contra o projeto, o Papai Noel é capturado. Mas os fatos mostrarão que Sally estava totalmente certa.

(fonte: adorocinema.com.br)

 

Fui (ou sou) uma criança aficcionada por “desenhos de massinha”, que muitos anos depois de sair da infância aprendi que tinham um nome “de gente grande”: claymation, uma vertente da animação stop motion. Cresci assistindo ao Globinho antes de ir para o colégio, e a bronca corria solta nessa hora pois quase sempre eu me atrasava por estar assistindo a Mio e Mao www.youtube.com/watch?v=SWhX8pL5S0c ou Vermelho e Azul https://www.youtube.com/watch?v=koZeA5zDbF0. A véspera de Natal quase sempre era passada assistindo a “Rudolph, a rena do nariz vermelho” https://www.youtube.com/watch?v=TQvbJ-spKuU, um clássico do SBT. E, ao ter filho, como não aproveitar para continuar curtindo e assistindo? Diversão garantida sempre.

 

Acredito que a obra tenha tido grande influência ao fazer com que as animações stop motion deixassem de ser rotuladas apenas como “filme para crianças”. A exemplo das animações da Pixar, o roteiro consegue atingir todas as faixas etárias. Enquanto as crianças se divertem – e se assustam – com os ‘bonecos’, os adultos curtem as piadas de duplo sentido, as sutis críticas sociais e políticas, assim como as referências a outros filmes e livros. Logo no início do filme, por exemplo, o prefeito de Halloween Town, ao bater à porta de Jack, solta a seguinte pérola: “I’m just an elected official here! I can’t make decisions by myself.” (“Eu sou apenas um funcionário eleito! Não posso decidir nada sozinho.”). Adultos curtem a ironia. Crianças curtem a cara ‘giratória’ do personagem que muda de alegre para triste. E, assim como esta, várias outras cenas tem essa abrangência.

 

Com a direção atribuída erroneamente a Tim Burton, que apenas assina o roteiro (além de ser o produtor), querendo ou não timbrou o que passou a ser chamado de “estilo Tim Burton”: histórias com personagens diferentes, ou melhor, esquisitos mesmo; protagonistas que se sentem deslocados no seu próprio habitat que, na tentativa de mudar, muitas vezes colocam os pés pelas mãos; visual diferenciado, geralmente sombrio; figurinos tendendo para o preto – vide Edward Scissorhands. E tudo se harmoniza num resultado visual e narrativo que cativa o espectador, graças também logicamente ao talento do diretor, um especialista em stop motion responsável também por outros sucessos do gênero como James and the Giant Peach (James e o pêssego gigante) e o mais recente Coraline.

Por maior que seja a excelência técnica – e, nesta obra, é enorme – é a narrativa que garante que o filme funcione. Adulto ou criança, o espectador inevitavelmente se identifica com a insatisfação de Jack e sua tentativa de buscar algo novo, com o desejo de liberdade de Sally, com a insegurança dos moradores de Halloween City frente às ideias de Jack. É nessa conexão que reside o trunfo do roteiro. Mesmo que o público se pegue pensando “Hummm, isso não vai dar certo.”, é impossível não torcer pelo sucesso da empreitada. E a forma como Jack retorna e passa a ver seu próprio mundo com novos olhos após essa experiência é algo pelo que todos nós passamos, em diversos graus de intensidade. Quantas vezes não ficamos animados demais com uma possibilidade nova e essa animação acaba por nos cegar para problemas em potencial? E quantas vezes, ao cair na real, não passamos a dar mais valor ao nosso “mundinho”?

 

Impossível não mencionar a incrível trilha sonora de Danny Elfman. Além de casar perfeitamente com o clima e ilustrar fielmente as cenas do filme, as canções são tão eficientes que “grudam” na cabeça por horas – qualquer pai/mãe que teve de assistir infinitas vezes sabe como é passar o dia todo cantarolando “Isto é Halloween! Isto é Halloween! Halloween! Halloween! Halloween! Halloween!”. O filme é praticamente um musical, mas está longe de se assemelhar às clássicas “animações com cantoria” da Disney. Vale frisar que Elfman é a voz de Jack nas canções.

No fim das contas, Nightmare before Christmas é um filme de natal – um dos meus prediletos – apesar de seu espírito natalino às avessas. E não poderia deixar de ser citado nesta época do ano.

Nightmare before Christmas (1993) – O estranho mundo de Jack

Roteiro: Tim Burton

Direção:  Henry Selick

 

 

 

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