Sexta Meia Noite

Crítica – Fahrenheit 451

“BOMBEIROS, MAMÃE! VAI HAVER UM INCÊNDIO…”

Por Cristine Tellier – Fahrenheit 451 

O filme já estava há algum tempo na minha lista para ser assistido. Sempre por um motivo ou outro, acabava ficando para depois. Mesmo por que eu tinha a intenção de ler antes o livro homônimo em que o filme se baseia, de Ray Bradbury. Há alguns meses, li um post falando sobre o livro – mea culpa, não consigo me recordar onde foi. Li e comentei com um amigo. Sobre o post, sobre o livro e sobre meu interesse ter sido aguçado depois da leitura do texto. Até que, casualmente, esse mesmo amigo adquiriu o livro e eu prontamente pedi-o emprestado. Nunca havia lido nada de Bradbury e foi uma grata surpresa o modo natural como seu texto flui e, consequentemente, a leitura também. Avidamente, “devorei” o livro em menos de uma semana – devem ter sido 3 ou 4 dias. Mas este texto é sobre o filme. Do livro, comenta-se em outro post.

Num futuro distópico, um governo totalitário proíbe ler e manter livros, sob o pretexto de que tornam as pessoas infelizes. Bombeiros, então desnecessários para contenção de incêndios, são os responsáveis pelo controle e incineração de qualquer exemplar impresso encontrado. Além de atear fogo aos livros, os bombeiros são também responsáveis por encontrar, perseguir e deter aqueles encontrados mantendo-os e lendo-os. Tal qual uma polícia “especial”, uma Gestapo bibliófoba.

A curiosidade acerca do título, obviamente, foi sanada logo no frontispício do livro. Fahrenheit 451 é a temperatura na qual o papel do livro pega fogo. No filme, essa explicação é dada pelo protagonista à outra personagem. (No livro, isso também ocorre. Mas quando ocorre, o leitor – se não pulou a página frontal – já está informado do que se trata.)

“Os livros alteram as pessoas. Tornam-nas anti-sociais.”

(Guy Montag)

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Guy Montag (Oskar Werner), o protagonista, é um bombeiro. Casado com Linda (Julie Christie) – no livro, Mildred – , inicialmente parece bastante satisfeito com sua profissão e sua vida. Faz bem seu trabalho, está prestes a ser promovido. Leva uma vida simples e normal. Sua esposa passa boa parte do tempo em casa, imersa nos programas de tv, junto com a Família – alcunha dada aos personagens e apresentadores dos programas televisivos. Enfim, um lar de aparente felicidade, de cotidiano tranquilo, perfeito.

Porém, um encontro inesperado faz com que Montag passe a questionar sua própria motivação e a validade do seu ofício. A conversa com Clarisse, sua vizinha (Christie, também) tem um efeito catalisador e ele começa a sentir-se inquieto no cumprimento de seu dever. Inquieto e em dúvida. Esconde em casa alguns dos livros que deveria queimar. E já não consegue ter tanta certeza de que os preceitos que vem seguindo há anos sejam realmente o melhor para ele, para sua esposa, para a sociedade. Chega a hesitar numa das execuções. Tornando-se desse modo um pouco suspeito aos olhos de seus pares e de seu chefe. Linda, assim como as “amigas” que frequentam sua casa, e importando-se apenas com a Família da tv, não consegue lidar com a mudança de atitude de Montag. Alienada, pede-lhe até para escolher entre ela e os livros.

Numa referência clara ao final do livro (e do filme) os créditos iniciais, diferentemente do habitual, são narrados, não escritos. Sustentadas pela trilha sonora sempre eficiente de Bernard Hermman, as imagens introdutórias – antenas de tv – se sucedem de tal modo como se os créditos estivessem aparecendo escritos na tela. E a técnica é tão eficaz, que apenas reparei nesse detalhe quase ao final da introdução. Voltei o filme para me certificar e soltei aquela interjeição básica (e incontrolável) dos reles mortais ao se depararem com uma sacada de gênio numa obra – seja filme, livro, série de tv – : “Pqp!! Como ele teve essa ideia?!” Acredito que sua intenção tenha sido dar ao público o mesmo que é permitido aos personagens: imagens, mas não texto – o que é nitidamente percebido na cena em que Montag “lê” um jornal sem palavras, apenas imagens, como uma HQ sem diálogos. Submetendo o espectador à mesma proibição a que são submetidas os personagens, ele é imerso no universo narrativo desde o início.

A estória se passa numa época indeterminada, pois não há datas para situar o leitor/espectador. Ocorre num futuro distópico representado diferentemente no livro e no filme. Enquanto no primeiro, o ambiente é descrito como extremamente limpo e automatizado, o que dá a impressão de ser algo mais futurista, com mais branco e cromados, mais próximo do ambiente de “2001 – uma odisseia no espaço”; no segundo, o ambiente reflete a época em que o filme foi filmado. Cenário, figurino, penteados, equipamentos, tudo é bem datado, bem “sixties”. Talvez, a opção do diretor tenha sido por aproximar ainda mais o público que assistiria ao filme na década do seu lançamento. Seu intuito, possivelmente, fosse o de demonstrar que aquele futuro poderia não estar assim tão distante. Assistindo hoje, esse objetivo não é atingido. O ambiente remete a uma realidade alternativa e não a uma evolução da sociedade atual.

Porém, além dessa intenção por assim dizer “mais digna”, não se pode excluir a possibilidade de que não tenha sido uma “opção”, e que se deva a uma adaptação forçada à falta de dinheiro para produção de melhor qualidade e criatividade. Isso faz sentido quando se percebe o reaproveitamento de cenas (rodando ao contrário e depois repetindo no sentido certo) e outros detalhes de qualidade duvidosa que, mesmo para aquela época, já poderiam ter sido feitos se o orçamento fosse suficiente. “2001 uma odisséia no espaço” era da mesma época e tinha efeitos e ambientações muito superiores. Há cenas que, apesar da (aparente) viabilidade técnica, poderiam ter sido deixadas de lado ou feitas de outra forma. Os policiais em “trajes voadores”, por exemplo. O efeito de back projection deixou tudo simplesmente ridículo. Arranca risos, ao invés de causar tensão.

Mesmo não sendo um livro longo, alguns detalhes foram deixados de lado no filme. Provavelmente por impossibilidade técnica de execução (como Sabujo, o cão mecânico), ou por opção do roteirista e do diretor. Essas ausências não chegam a comprometer demais o sentido do filme. Apesar de eu ter sentido bastante a falta de Faber, personagem do livro que é uma espécie de mentor de Montag. Creio que seja a ausência mais significativa – e prejudicial – pois ele é quem dá o “golpe final” em Montag para trazer sua consciência à tona.

Outra diferença entre livro e filme é a cena de Montag na escola com Clarisse que foi inclusa certamente com o intuito de representar o trecho do livro em que Clarisse discorre sobre educação. Não atrapalha, parece apenas indicar que Truffaut importava-se mais com este assunto que Bradbury. Ainda sobre Clarisse, enquanto no livro ela é uma adolescente, em todo seu frescor e estouvamento; no filme, Truffaut optou por envelhecer a personagem. O que não funcionou muito bem, visto que a forma como ela aborda os assuntos ainda é típica de uma adolescente, fazendo a personagem parecer uma retardada e não uma pessoa com idéias diferentes. Além disso, o roteiro falha ao transpôr os diálogos entre eles. O “discurso” dela carece de força e não convence o público de que seria o suficiente para mudar a visão de um homem alienado como ele. Aliás, a falha na transcrição dos diálogos é generalizada, fazendo as falas parecerem artificiais e teatrais. Sobretudo quando o capitão dá o sermão final em Montag. Se ele estivesse embriagado, talvez fosse mais convincente.

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No filme, Clarisse é uma professora, demitida por não concordar com os padrões educacionais vigentes. Possivelmente, a intenção era que Clarisse fosse mais que o gatilho na transformação de Montag. Que a sedução fosse não somente ideológica, mas sexual também. Creio que tenha sido esse o motivo que levou Truffaut a utilizar a mesma atriz para interpretar tanto Linda como Clarisse. Fisicamente semelhantes (cabelo e figurinos diferenciados) e, ao mesmo tempo tão diferentes. Uma, totalmente alheia e imersa no divertimento instantâneo oferecido pela Família. A outra, que sequer possui aparelho de tv em casa, resistente à cultura massificante difundida pelo governo. A semelhança física faz com que a diferença de atitude fique ainda mais evidente para Montag.

Porém, acredito que a maior diferença seja o destino de um dos personagens. No livro, não há o que pode ser chamado de final feliz, já que não sabemos o que realmente lhe ocorre. Enquanto que no filme, Truffaut resgata o personagem, creio eu – ou melhor, tenho quase certeza – com o intuito de preencher uma lacuna dramática que certamente deixaria a maioria dos espectadores decepcionados, ou mesmo descontentes.

Sobre o filme como um todo, há algumas curiosidades. Baseado num livro escrito por um norte-americano, Truffaut, francês, dirige seu único filme falado em inglês – idioma que ele não domina – numa nítida tentativa de ampliar o alcance da obra. Filmado em locações na Inglaterra, com atores falando com leve sotaque britânico. E cujo protagonista é representado por um ator alemão, que entrou na produção após a desistência de Paul Newman, às vésperas do início das filmagens.

(Spoiler à frente) No final do filme, quando Montag foge e conhece as pessoas-livro – pessoas que decoram determinada obra e “se tornam” a obra – uma delas é “As crônicas marcianas”, numa clara homenagem ao autor de “Fahrenheit 451″.

Enfim, é um filme bom, mas longe de ser uma obra-prima como o livro. Caso alguém me pergunte, indicaria a leitura do livro ao invés do filme. Certamente, a experiência é muito mais enriquecedora.

Roteiro: François Truffaut, Jean-Louis Richard

Direção: François Truffaut

http://luzescameracafe.com.br/2012/03/bombeiros-mamae-vai-haver-um-incendio

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